24 abril, 2017

Paradoxo


Quero caber nos teus braços, mas sou infinita.
Quero ser o sol que nasce no horizonte e te toca a pele numa manhã gelada e cinzenta de Janeiro.
Sou quem te eleva ao céu mas que te coloca de joelhos aos meus pés.
Sou o direito do lado mais avesso da tua vida.
Danço ao som do silêncio e desfruto da tranquilidade no meio da multidão.
Quero que penetres em mim sem me tocar. Abro te a porta mas sem intenção de te deixar entrar.
Sou a paz delirante. A virgem prostituta.
Sou a Santa e o Demónio. A fiel pecadora. 
A causa e a cura.

Em Profundidade


Gosto de sentires profundos, intensos.
Daqueles que sufocam a alma, que esmagam a razão. Dos que penetram calmamente mas que permanecem, e crescem em mim. São sentires aumentados, que invadem o meu corpo e que me fazem sempre ansiar por mais.
Com a ofegante respiração dos sentires entranhados em mim, sinto o brotar em avalanche do mais sagrado dos cálices. 

23 abril, 2017

Banho


Banho de água fria em corpo quente.
Um banho que lava a alma, lava o corpo e suja a mente. Trago desejos que me escorrem pelas mãos, aquelas que te deslizam pelo corpo acompanhando o descer da água na tua pele. Mãos que incendeiam e imploram por ti, mãos sedentas do teu corpo no meu.
Pele com pele, carne com carne, o sangue fervilha nesta ânsia de te ter dentro de mim, nesta calma carregada de urgências, pelo consumo desenfreado do teu corpo. Quero te entre as minhas pernas, onde morre e nasce o desejo luxuriante pela entrega de dois corpos que se querem, desesperadamente.

Poetiza me


Vive em mim uma agitação desconcertante
Um impulso divino que me leva a ti
E neste rodopiar de alma delirante
É  muito mais hoje o que sinto do que ontem senti

Queria o mundo parar
Para neste carrossel nos fazer entrar
Neste onde a minha vida se confunde com a tua
Onde os nossos nomes se conjugam no verbo amar

Mas que tormento em mim vive
Sem me poder a ti chegar
Entre a loucura de te ter em mim
E a incerteza de saber esperar

Nos lábios trago o teu nome
Que a alma não cansa de clamar
Num furacão de quereres
Que apenas e só tu podes acalmar

Rodopia em mim um desejo
Impossível de finar
Perdido na certeza que a paz
Apenas nos teus braços posso encontrar

E perguntar me ias tu
Como pude eu assim ficar
Entre uma mão cheia de nada
E uma boca cheia de suplicar

Responder te ia em letras difíceis de decifrar
Porque entre a insanidade do meu querer
E a razão do meu definhar
Existe uma palavra que não ouso pronunciar 


Trinta Segundos


A magia de dois lábios perdidos entre a imensidão do centímetro quadrado que ainda os separa. Aquele momento em que o silêncio é Rei e tudo o que se cala tende a gritar através do olhar que se troca. 
Nos corpos despidos de razão e abraçados ao vazio do nada, impera a tensão, o pré sente na antecipação sôfrega da união eminente.
Olhar que cativa e lábios que se atraem, neste jogo de sedução que dura toda uma vida encaixada numa fração de momento.
Magnetismo puro, quereres em ascenção, alma corrompida pela entrega do corpo. Portas entreabertas violadas pela tentação e a decadência insana que transporta a eterna vontade.
Há uma quase demência que cabe nestes trinta segundos que se antecedem à tua chegada a mim. Algo que se sente e não se reproduz, algo que domina mas que liberta. 

22 abril, 2017

Querer sem querer


Vivo neste querer que não quero querer
No meio de quereres que quero controlar
E de tanto te querer digo que não quero
Mas sei que entre os nossos quereres nos vou encontrar

E quero te assim deste jeito
Que nem me atrevo a explicar
Num querer que não posso ter
Porque quero mas vou sempre negar

Sei que me queres nas entrelinhas
Dos teus quereres por decifrar
Mas de tanto me quereres
Acabarás, ali mesmo, por nos encontrar