30 abril, 2017

Ausência


Queria que ficasses aqui
Neste campo de abstratos feito
Onde palavras são vãs
Mas de onde a alma tira proveito
Campo minado de desejos
Ocultos e obscuros
Onde os corpos não tocam
Mas ainda assim transpõem muros
Aqui onde te tive, e onde fiz morada
Neste meio termo de vida
Onde éramos pouco mais que nada
Mas onde a alma se tinha fluída
Espero te aqui
Na morada que é só nossa
Nestes restos de vida que recolho
E onde a tua ausência faz mossa

29 abril, 2017

Bagunça


Gosto da bagunça em que fica o meu corpo e o teu no fim da nossa eterna tentativa de saciar desejos.
Pedaços teus fluídos nos meus. Numa luxuriante mistura de especiarias, entre o agri e o doce. Entre o balançar de corpos e a loucura que não os detém.
Estes dois corpos, pedaços de uma perdição partilhada, que colidem e se conjugam na imensidão do pecado, sedento e suplicante de se terem outra, e outra vez. 

100


Sem roupa
Sem limites
Sem horários
Sem interrupções
Sem pudor
Sem pressas
Sem o mundo lá fora

É assim que nos queremos, sem os limites que nos prendem ao chão, cem amarras se soltam para podermos ser. Ser tua. Seres meu. Sermos sempre nossos.

Amor


Abstracto. Sensação de queda livre em campo seguro e repleto de paz. Tranquilidade e equilibro. Força extrema que derruba obstáculos abismais e escala muros quase intransponíveis. Coragem, determinação.
Perda quase total dos sentidos para dar ênfase aos sentires.
Delírio. Mente viajante com passaporte marcado, cravejado de carimbos de todas as paragens onde pára o amor. Proteção, aconchego,  carinho, compreensão, ligação sensorial, intimidade, intensidade, partilha, dádiva. É o tudo dentro do nada palpável. É o abstrato que quase se toca. É arte no expoente máximo da representação perfeita da colisão entre dois seres. É melodia subtilmente pautada por notas de luxúria e perdição. É tinta que escorre de um quadro, transpondo assim as linhas do limite do que carregamos na nossa tela.
Liberdade para ser, para deixar de parecer. É um sermos mas com a individualidade do ser, é um plural que petrifica dois singulares.

28 abril, 2017

Em Estado Líquido II


Mãos carregadas de desejo diluído e que entre os dedos se perde e flui numa hipnotizante colisão entre a tua tesão e a minha.
Dedos que deslizam e me preenchem, que me inebriam e me convertem numa fiel crente e praticante dessa tua religião, aquela que praticas de corpo fervente e de alma suplicante. 

Na Penumbra


Mantenho me ali, na penumbra, no limbo entre o querer e o poder. Neste local obscuro em que busco pela luz da tua presença em mim, neste desejo vadio e autosuficiente, onde apenas comando o próximo passo. Entre o ir e ficar, entre o caminhar no trilho sinuoso que me leva até ao teu corpo e o gélido percurso que me afasta de mim mesma. Negar te seria negar toda a minha insaciável vontade de te viver. De te consumir, sem qualquer moderação, de te ter em mim, em nós. 

27 abril, 2017

Desobedece me


Desobedece me quando te digo que não sou digna de ti. Quando te digo que não podes escalar os muros que construi para minha defesa.
Desobedece me quando te digo que jamais irei amar, que não quero colo, nem tão pouco que te quero abraçar.
Desobedece me e redesenha me nestes pedaços de papel machucados espalhados pelo chão. Cola me à vida como gostarias que  estivesse colada a ti.
Desobedece me quando o meu corpo suplica pela calma do teu mas os meus lábios cheios de mentiras te dizem que te quero em urgências.
Desobedece me até à exaustão, pois é nessa curva de vida que me rendo. Nessa estrada de sentido único em que o destino me leva até ti.

Partidas e Chegadas


Na delicada sinfonia de uma chegada deixamos para trás um solo de bateria, irremediavelmente ensurdecedor para a alma, aquela que em pedaços se carrega. 
Na esquina do Adeus, na esquina onde tudo termina, onde o corpo se move rumo ao destino, fica uma parte de nós, que insistentemente nos quer acompanhar, mas que por excesso de bagagem e num toque subtil de generosidade deixamos ficar. Aquela parte de nós, salpicada pela dor da partida e a ânsia e urgência da chegada a bom porto, um fragmento do que fomos, do que queríamos ter sido, e que nunca mais seremos.

26 abril, 2017

Achar


Qual de nós dois já sentiu o gosto agridoce de se perder do mundo para se encontrar em alguém?
Fazer da pele vício, do corpo aconchego, da alma equilíbrio. Na perfeita junção de dois seres...
Qual de nós dois já se perdeu para se achar?

25 abril, 2017

Espera me


Espera me na esquina da tentação, neste quarto redondo que é o prazer, onde fugimos desenfreadamente um do outro, sabendo que a fuga nos aproxima.
Espera me com a fome que trazes no olhar. Com essa insaciável loucura que trazes na carne e que te traz até mim.
Espera me como se apenas o meu corpo no teu fizesse sentido, como se dessa união dependesse o oxigénio que te mantém vivo.
Espera me de braços abertos para que possas preenche los com a minha imensidão.
Espera me ali mesmo onde sabes que irei ao teu encontro de corpo latejante e a transpirar tesão.
Espera me no sítio que só nós conhecemos, o recanto mágico da nossa mente, o único em que podemos ser, onde pertencemos um ao outro. 

Essa tal Liberdade


E nessa tal liberdade mundana
Em que somos escravos do parecer
É Rei e Senhor
Aquele que ousa ser

Num Mundo de plástico e dissoluto
Onde valores esquecemos 
Vivemos emaranhados em coisas
Às quais nos vendemos

Afortunados aqueles a quem a alma
Deixou livre para amar
E haverá maior amor
Do que ser livre e escolher ficar?

Nos tempos de relações fugidias
Onde nada do que se sente importa
Vamos vivendo de bens
Para mostrar do lado de fora da nossa porta

Queira o povo aprender que ser
É ser se superior ao parecer
Que o sonho ainda comanda a vida
Daqueles que ousam não se render

E neste jogo de aparências
A liberdade de poder ser
Vive enjaulada nas reticências
Que tentamos esconder

Sonhava eu um dia existir
A grandeza de poder amar sem razao
Na irracionalidade do sentir
Aquele sentimento que nos deita ao chão

Ingénua me senti
Ao saber que agora não é assim
Quem ama não pode amar
Amar não mais será um frenesim

Mas na liberdade que a mim impus
Serei sempre Senhora e Dona
Mandarei que se fodam
Aqueles a quem a liberdade é apenas uma zona

24 abril, 2017

Paradoxo


Quero caber nos teus braços, mas sou infinita.
Quero ser o sol que nasce no horizonte e te toca a pele numa manhã gelada e cinzenta de Janeiro.
Sou quem te eleva ao céu mas que te coloca de joelhos aos meus pés.
Sou o direito do lado mais avesso da tua vida.
Danço ao som do silêncio e desfruto da tranquilidade no meio da multidão.
Quero que penetres em mim sem me tocar. Abro te a porta mas sem intenção de te deixar entrar.
Sou a paz delirante. A virgem prostituta.
Sou a Santa e o Demónio. A fiel pecadora. 
A causa e a cura.

Em Profundidade


Gosto de sentires profundos, intensos.
Daqueles que sufocam a alma, que esmagam a razão. Dos que penetram calmamente mas que permanecem, e crescem em mim. São sentires aumentados, que invadem o meu corpo e que me fazem sempre ansiar por mais.
Com a ofegante respiração dos sentires entranhados em mim, sinto o brotar em avalanche do mais sagrado dos cálices. 

23 abril, 2017

Banho


Banho de água fria em corpo quente.
Um banho que lava a alma, lava o corpo e suja a mente. Trago desejos que me escorrem pelas mãos, aquelas que te deslizam pelo corpo acompanhando o descer da água na tua pele. Mãos que incendeiam e imploram por ti, mãos sedentas do teu corpo no meu.
Pele com pele, carne com carne, o sangue fervilha nesta ânsia de te ter dentro de mim, nesta calma carregada de urgências, pelo consumo desenfreado do teu corpo. Quero te entre as minhas pernas, onde morre e nasce o desejo luxuriante pela entrega de dois corpos que se querem, desesperadamente.

Poetiza me


Vive em mim uma agitação desconcertante
Um impulso divino que me leva a ti
E neste rodopiar de alma delirante
É  muito mais hoje o que sinto do que ontem senti

Queria o mundo parar
Para neste carrossel nos fazer entrar
Neste onde a minha vida se confunde com a tua
Onde os nossos nomes se conjugam no verbo amar

Mas que tormento em mim vive
Sem me poder a ti chegar
Entre a loucura de te ter em mim
E a incerteza de saber esperar

Nos lábios trago o teu nome
Que a alma não cansa de clamar
Num furacão de quereres
Que apenas e só tu podes acalmar

Rodopia em mim um desejo
Impossível de finar
Perdido na certeza que a paz
Apenas nos teus braços posso encontrar

E perguntar me ias tu
Como pude eu assim ficar
Entre uma mão cheia de nada
E uma boca cheia de suplicar

Responder te ia em letras difíceis de decifrar
Porque entre a insanidade do meu querer
E a razão do meu definhar
Existe uma palavra que não ouso pronunciar 


Trinta Segundos


A magia de dois lábios perdidos entre a imensidão do centímetro quadrado que ainda os separa. Aquele momento em que o silêncio é Rei e tudo o que se cala tende a gritar através do olhar que se troca. 
Nos corpos despidos de razão e abraçados ao vazio do nada, impera a tensão, o pré sente na antecipação sôfrega da união eminente.
Olhar que cativa e lábios que se atraem, neste jogo de sedução que dura toda uma vida encaixada numa fração de momento.
Magnetismo puro, quereres em ascenção, alma corrompida pela entrega do corpo. Portas entreabertas violadas pela tentação e a decadência insana que transporta a eterna vontade.
Há uma quase demência que cabe nestes trinta segundos que se antecedem à tua chegada a mim. Algo que se sente e não se reproduz, algo que domina mas que liberta. 

22 abril, 2017

Querer sem querer


Vivo neste querer que não quero querer
No meio de quereres que quero controlar
E de tanto te querer digo que não quero
Mas sei que entre os nossos quereres nos vou encontrar

E quero te assim deste jeito
Que nem me atrevo a explicar
Num querer que não posso ter
Porque quero mas vou sempre negar

Sei que me queres nas entrelinhas
Dos teus quereres por decifrar
Mas de tanto me quereres
Acabarás, ali mesmo, por nos encontrar 

Em estado Catatónico


Deambulo me por este chão onde firmo os meus pés, o mesmo que me levita o corpo, em puro estado catatónico.
Passiva nas minhas não ações, imóvel entre olhares que me cruzam e nada me despertam. A inércia apoderou se do meu corpo, outrora consumido pela exuberância do teu existir.
Sinto te ao longe. Consigo inalar o cheiro que emana do teu corpo. A minha pele sente o conforto do teu toque. Mas ainda assim, estás ali, ao longe, onde a minha mão não te consegue alcançar.
Todo o meu corpo reage á luxúria que a tua memória me trás, invadido por uma onda de choque que me desperta e vulcaniza de imediato.
Neste estado apocalíptico, as pernas trémulas cedem. Aqui me tens, inerte, em estado puro, despida de tudo o que nos ultrapassa, rendida de joelhos aos teus pés. 

Escondido


As coisas que escondemos nas catacumbas do coração, comem nos vivos.
Somos os arquitectos da nossa própria destruição. 

21 abril, 2017

Purgatório


És vício. És pecado. És meu.
És vício quando já nada me satisfaz tanto quanto o teu nome a preencher me os lábios.
És pecado quando é no teu corpo sob o meu que nasce e morre a palavra sagrada que nos une em total e divino nirvana.
És meu sempre que te esqueces das horas e as deixas livremente vaguear sobre nós em memórias antecipadas na dúvida eterna se estás perante o céu ou o inferno, e te manténs ali, no purgatório a tentar salvar as nossas almas perdidas, pecadoras e viciadas neste jogo imaculado, mas batoteiro.