23 maio, 2017

Despires de Alma


Pediste que fosse Senhora de me despir das capas negras do tempo. Das enchentes de sorrisos que dou ao Mundo quando por dentro carregava o fardo das tempestades pelas quais ainda não me ultrapassei, que estão presentes em cada inspirar de vida.
Pediste me que fosse eu, aquele ser que poucos conhecem, e os que conhecem, podem apenas ver e ter uma parte. A cor negra que trago junto ao corpo é a definição exata da minha alma em súplicas por cores, por vida, embora as carregue todas em mim, adormecidas.
Mas poucos o vêem,  acham apenas uma forma de estilo, fútil, um assumir de modas,  de gostos.
Acedi ao teu pedido. A tua mão foi me estendida, como se estende a mão a uma criança prestes a cair, a minha queda estava eminente, como está todos os dias em que me agarro com toda a força que cultivo em mim, aos corrimões que esta estrada me vai pondo no caminho.
Curtos e pesados, assim foram os passos que dei, corajosos e majestosos despires de alma, acutilantes, alguns agonizantes.
As quedas do percurso não pilares de existência, que nos fazem rir das marcas um do outro, ali, sentados no chão que nos marca a pele e nos tatua as enfermidades mais banais mas que nos pertencem.
Partiste antes mesmo de chegarmos à meta onde a luz da superfície nos espreitava, reluzente em ânsias pelo encerrar de ciclos que nos consomem. Foste cedo demais. E eu, fui fraca demais por não te ter conseguido arrastar comigo, por não ter ido à fonte, à luz da meta para te trazer um pedaço de esperança. Para te trazer o oxigénio que precisas para olhar novamente para a vida.
Meu querido amigo, aprendi contigo que quando vivemos demasiado tempo no escuro, olhar a luz fere a vista.

Soma de Tudo


Sou uma soma de tudo, deste tudo dentro do nada que sou.
Fui esculpida pelos fantasmas que me atormentam e as sombras que caminham ao meu lado, pelo negro que trago a cobrir me a pele e a alma cheia de arco íris escondidos aos olhos dos que meramente me vêem.
Talhada a medos e ânsias, a recantos obscuros e lágrimas que queimam a pele. Talhada para o infinito, para o que não se vê, para o que está para além do palpável.
Nesta soma de tormentos, de inquietudes existe um Eu e existe Esta, personagem sem nome, que dou todos os dias ao Mundo.

Caçador


Quantas vezes o caçador não é a presa disfarçada?
Assim caminhas sorrateiramente atrás de mim... como um lobo faminto, rastejando pela estrada que armadilhei criteriosamente para a tua passagem. Nela cairás vezes sem conta, tropeçando na minha eterna negação, mas também é ali que te estenderei a mão e te levantarei pedaço a pedaço. Degustando vagarosamente as delícias que escondes, provando o teu corpo.
Banhados pela lua que nos guia, escondidos pelas sombras da nossa alma, assim caminharemos disfarçados, eu como presa e tu o eterno caçador de almas.

22 maio, 2017

Poder


Nesta cama, deitada, indefesa, presa ao teu poder, ao nosso desejo...
Sinto te. O teu olhar viola o meu sem que este o possa ver. A tua respiração perto da minha pele. Os teus dedos que me tocam levemente, fazendo me tremer, arrepiando cada recanto escondido deste templo que te pertence.
Velarás este corpo, contemplando o, entre rasgos de insanidade, sorrindo a cada pedido meu para que me presenteies com o teu corpo dentro do meu. Usarás o poder que te ofertei para me fazeres passar pelo purgatório, antes de me fazeres subir aos céus, onde me perderei nas trevas deste inesgotável veneno fervilhante que me plantaste nas veias. 

21 maio, 2017

Vida depois da Morte


Porque és Dono desta vontade. Senhor deste feitiço que me alimenta o corpo. Rei deste pedaço de carne, que tantas e tantas vezes quer o seu último suspiro eterno nos teus braços, como se fosse possível morrer naquele instante de loucura, em que a carne se descontrola e a mente fica em suspenso.
Como se a vida após aquela morte fosse suplicada em gemidos e pedidos de possessão. 

19 maio, 2017

Olho Te


Olho te profundamente na busca do prazer que recebo de ti quando prazer é a única coisa que os meus lábios te querem dar naquele instante de vida.
Penetras a minha alma com a oscilação da tua respiração ofegante, em gemidos ritmados que te aumentam a combustão, que me fazem aumentar a intensidade com que te sorvo, com que te tomo como meu. Eternizo na minha mente o momento em que me invades com o néctar da perdição, latejante entre os meus lábios.